WideBr
WideBr
Pará · Reportagem

Cacau de Tomé-Açu ganha prêmio internacional e abre mercado na Europa

Uma cooperativa de pequenos produtores do nordeste paraense conquistou reconhecimento em concurso na Bélgica. Para trás do prêmio, uma história de agrofloresta, imigração japonesa e persistência.

Por Joana Belmiro, em Belém e Tomé-Açu · Publicado em 4 de julho de 2026 · 6 min de leitura

A notícia chegou por uma mensagem curta, de madrugada. "Ganhamos." Foi assim que os produtores da cooperativa de Tomé-Açu souberam que o cacau que cultivavam havia sido premiado num dos concursos mais disputados do mundo, realizado na Bélgica. A conquista coloca o nordeste paraense no mapa da chocolataria de alto padrão e abre um mercado que, até então, parecia longe das pequenas propriedades amazônicas.

O prêmio não veio por acaso. Tomé-Açu tem uma história singular. A colônia foi fundada por imigrantes japoneses no início do século XX, que trouxeram técnicas agrícolas e uma cultura de cooperativismo. Depois de fracassarem com a pimenta, os colonos migraram para o cacau e, mais recentemente, para sistemas agroflorestais — onde o cacau convive com outras espécies, imitando a floresta.

O que é especial nesse cacau

O cacau de Tomé-Açu é chamado de "fine" ou de qualidade. Diferente do cacau commodity, vendido por tonelada para a indústria de chocolate de massa, o cacau fine é comprado em pequenos lotes por chocolateiros que valorizam sabor, origem e história. O preço pago ao produtor é várias vezes maior.

Não vendemos cacau. Vendemos uma história que se come.

A frase é de um dos cooperados, que aprendeu a fermentar e secar os grãos segundo padrões exigidos pelo mercado internacional. O processo é trabalhoso, mas agrega valor. Em vez de R$ 200 pela arroba, o produtor pode chegar a vários múltiplos desse valor quando vende para chocolateiros belgas, franceses ou italianos.

A agrofloresta por trás

Boa parte do cacau premiado vem de sistemas agroflorestais. Neles, o cacaueiro cresce junto com bananeira, fruteiras e árvores nativas. O modelo reduz a necessidade de desmatamento, melhora o solo e cria renda diversificada. Para pesquisadores que acompanham a região, Tomé-Açu virou referência de que é possível produzir na Amazônia sem destruir a floresta.

Há desafios. O manejo agroflorestal exige conhecimento e mão de obra. O transporte, em estradas vicinais, é difícil. E o mercado internacional é exigente: um lote que perde pontos na fermentação perde valor. Por isso, a cooperativa investe em capacitação e em uma central de fermentação padronizada.

O mercado que se abre

O prêmio na Bélgica abre portas. Chocolateiros europeus já procuraram a cooperativa para encomendar lotes. Para os produtores, isso significa renda estável e previsibilidade — algo raro na agricultura familiar. Para a região, significa um modelo a ser replicado.

"A Amazônia tem chance de virar celeiro de produtos de alto valor, e não só de grão commodity", diz um engenheiro agrônomo que assessora a cooperativa. "Mas isso exige organização, técnica e paciência. Não é da noite pro dia."

Em Tomé-Açu, a noite da premiação foi de festa. Pela manhã, voltou o trabalho. Há cacau para fermentar, lotes para classificar e um mercado novo para abastecer. O prêmio abriu a porta. Agora é preciso cruzá-la — e manter-se do outro lado.

Tags: parácacauagroflorestaamazônia
JB
Joana Belmiro

Correspondente do WideBr em Manaus. Cobre a Amazônia, comunidades e economia da floresta.