Rio Solimões bate recorde de volume e comunidades ribeirinhas se preparam para a cheia
O rio subiu mais rápido do que o esperado neste ano. Em Tefé e arredores, moradores organizam a vida na várzea enquanto prefeituras acionam plano de emergência.
Na comunidade de Santo Estêvão, às margens do Solimões, o sinal de que a cheia chegou não vem do rádio nem do aplicativo. Vem da água que entra devagarinho pelo quintal. Primeiro cobre a grama. Depois, o pé de jambu. Quando atinge o primeiro degrau da casa elevada, dona Cleuza sabe: é hora de subir tudo para o sobrado e esperar a água baixar.
Este ano, o sinal veio mais cedo. O nível do Solimões subiu de forma acelerada nas últimas semanas e já ultrapassou a média histórica para o período, segundo dados do Serviço Geológico do Brasil. Em Tefé, a marca registrada nesta semana foi a maior dos últimos sete anos. Para quem mora na várzea, isso significa antecipar tudo: a mudança, a escola das crianças, o cuidado com os doentes.
O ciclo que não para
A cheia do Solimões não é surpresa. Faz parte do ciclo das águas que rege a vida na Amazônia: a cada ano, o rio enche entre fevereiro e julho e esvazia no restante. O problema é quando o ciclo fica mais intenso — e é isso que vem acontecendo. Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia apontam que os extremos têm se tornado mais frequentes.
A gente aprende a viver com a água. O que a gente não aprendeu foi a viver com tanta água tão rápido.
A frase é de Seu Bartolomeu, morador de uma comunidade vizinha a Tefé. Ele vive na região há quarenta anos e diz que nunca tinha visto o rio subir daquele jeito. Na casa dele, a família já transferiu panelas, redes e documentos para o andar de cima. O gado foi levado para a terra firme. A horta, essa, perdeu.
O plano de emergência
Prefeituras da região acionaram nesta semana o plano de emergência para a cheia. O conjunto de medidas inclui abrigos provisórios, distribuição de kits de higiene, vacinação antirrábica para animais e reforço no atendimento básico de saúde. Segundo a Defesa Civil do estado, mais de três mil famílias já foram atingidas ou estão em área de risco em toda a região do médio Solimões.
O desafio, segundo um coordenador da Defesa Civil ouvido pela reportagem, é logístico. Muitas comunidades só são acessíveis por barco, e o transporte de ajuda humanitária depende de um calendário apertado entre a subida do rio e o isolamento das vilas.
O que dizem os cientistas
Para entender o que está acontecendo, conversamos com uma pesquisadora que estuda o regime hidrológico da bacia amazônica há mais de uma década. Ela explica que a cheia deste ano combina dois fatores: chuvas acima da média na cabeceira e o chamado "efeito de represamento" natural do rio, que neste período retém volume maior.
A pesquisadora evita atribuir o evento a uma causa única, mas aponta que a série histórica mostra intensificação dos extremos. "Não dá para dizer que esta cheia específica é causada por isto ou aquilo. Mas o padrão de eventos extremos mais frequentes é consistente com o que os modelos prevêem", diz.
A vida que segue
Em Santo Estêvão, dona Cleuza terminou de subir as últimas coisas no fim da tarde. A água já lambia o segundo degrau. Ela disse que ia preparar o jantar — arroz com jambu, peixe salgado — e esperar. "A água sobe, a água desce. A gente continua aqui", resumiu.
É essa a lógica da várzea: o rio manda, e a vida se adapta. O que muda, ano a ano, é o quão rápido a adaptação precisa acontecer. E, talvez, até onde ela dá conta.
Correspondente do WideBr em Manaus. Cobre a Amazônia, comunidades ribeirinhas e meio ambiente.